por: Murilo Carneiro
Aluna: Fernanda Aparecida Ventura Ribeiro
Minha avó e eu conversávamos sentadas em um banco, em frente à casa dela, quando lhe pedi que me contasse um pouco de sua vida, no passado. Ela, então, olhou em meus olhos e começou a contar...
No meu tempo, as coisas eram muito difíceis. Eu morava nesse município de Presidente Bernardes - que era conhecido por Calambau - em um lugarejo chamado Caconde, bem distante da cidade. As casas eram de pau-a-pique, com chão de barro e telhado de sapé. Em uma delas morávamos todos juntos: meu pai, minha mãe e mais dois irmãos. Vivíamos apertados naquela pequena casa.
Com apenas sete anos de idade, já ajudava a preparar a comida que era feita no fogão a lenha. Meu pai colocava um caixotinho ao lado do fogão para eu subir e alcançar as panelas.
Todos os dias levava almoço para o meu pai e meu irmão mais velho na roça, onde plantavam feijão e milho à meia com o dono das terras. Depois da colheita, deveriam dividir a metade com os donos. Eles trabalhavam o dia todo na lavoura e voltavam ao entardecer, cansados e suados. A água quente do fogão era, então, colocada em bacias e temperada para os banhos que aliviavam o cansaço e restauravam as forças.
Quando a noite chegava, meu pai acendia as lamparinas... E lá ia eu de novo para o fogão de lenha ajudar minha mãe a preparar alguma coisa para matar a fome. Preparávamos, com muito carinho, um delicioso mingau de couve que saboreávamos todos juntos. Depois disso, estendíamos esteiras de palha pelo chão e íamos dormir. Algumas vezes, papai nos contava histórias. A minha preferida era João e o pé de feijão. ( Empolgada, vovó me contou a história.)
Ao amanhecer, bem cedinho, já estávamos todos de pé para mais um dia de muito trabalho.
Enquanto eu fazia o café, meu pai ia tirar o leite da cabrita que morava no pequeno quintal de nossa casa. Era um leite grosso, adocicado e quentinho que tomávamos em canecas esmaltadas acompanhado de batatas doces assadas nas brasas do fogão. Uma delícia!
Não tínhamos vizinhos próximos à nossa casa, mas quando queríamos brincar, no curto tempo que nos sobrava, brincávamos de roda, de pique esconde e de contar histórias. Aqueles momentos de brincadeiras com os irmãos foram inesquecíveis para mim. Eram os momentos bons que faziam a vida parecer menos dura e inundavam o nosso coração de alegria. Gosto muito de recordar esses momentos.
Raríssimas vezes íamos à cidade. Ela ficava longe e era bem diferente de hoje. Não existia praça, nem igreja. Havia uma capelinha onde era celebrada uma missa todos os domingos.
Por causa da distância, não pude frequentar a escola. O pouco que sei, aprendi com meu pai.
Nesse momento, vovó Maria parou um pouco de falar e ficou com um olhar distante, perdido nas curvas do tempo. Depois, voltou e perguntou-me: “Onde é que eu estava mesmo, minha neta?” Foi, então, que aproveitei para saber como foi que ela se casou. “Ah, essa é outra história”– disse-me. Agora, com mais brilho nos olhos, começou a me contar sobre o seu casamento.
No meu tempo, os relacionamentos eram bem diferentes. A gente não podia namorar tendo a mesma liberdade dos tempos de hoje. Acabei casando-me com um rapaz que era do agrado dos meus pais. Era um rapaz bom, de boa família e muito trabalhador. Mas, o moço de que eu gostava mesmo, não foi aceito por eles. Casei-me com quinze anos de idade e tive cinco filhos.
Com o passar do tempo, conseguimos mudar para mais perto da cidade e construir a nossa casinha de tijolos e telhas. A partir daí, a vida foi ficando menos difícil para nós.
A cidade também mudou bastante. Uma linda igreja foi construída no centro da praça, as ruas foram calçadas e novas construções foram surgindo.
Hoje, meus filhos estão todos criados, casados e morando com meus netos aqui, bem pertinho de mim.
Agora, com meus setenta e seis anos, olhando pela janela do tempo, posso dizer que sou muito feliz.
Emocionada, abracei minha avó Maria – sem palavras.
( Texto baseado na entrevista com a senhora Maria da Silva Ribeiro)
Professora: Maria Goretti Guimarães Carneiro
Escola Estadual Pe. Vicente Carvalho-Pres.Bernardes-MG
Com a crônica acima, a Escola Estadual Padre Vicente de Carvalho, pela quarta vez irá a uma semi-final das Olimpíadas da Lingua Portuguesa, a nível nacional.Nas três anteriores as nossas alunas obtiveram a medalha de bronze.
Agora chegou a vez da aluna Fernanda Aparecida Ventura Ribeiro, representar o nosso município nesta grandiosa competição.Os pais da Fernanda, que são pessoas humildes, deram toda a cobertura a filha e agora colhem o fruto desta dedicação. Cinco pessoas de nossa comunidade foram convidadas pela direção e professoras de português da Escola, para escolherem entre trinta textos, qual que iria partiipar da Olimpíada. Não foi fácil a escolha.Desta comissão fizeram parte:Enio Quintão Henriques,Ana do Carmo Sabino,Rosângela Aparecida Sabino,Glauciene S. Nogueira Diogo e Murilo Vidigal Carneiro.
De parabéns a aluna Fernanda e a Professora Goretti. Vamos torcer pela conquista de mais uma medalha!