Palavras e Mais Palavras

#CoisasDeCalambau
por: Murilo Carneiro

Patrícia Souza - 9º ano1
Professora: Dorlene
Escola Estadual Padre Vicente Carvalho

Parou-me perto da esquina da loja de calçados, com um olhar simpático e uma aparência antiga. Apresentava uma voz grave, mas que ao mesmo tempo conspirava saudade.

- Ei moça, poderia me ajudar?

- Claro Senhor!

- Responda-me por favor. Como moradora desta cidade o que tem a dizer sobre ela?

Naquele momento fui surpreendida. Esperava ouvir qualquer outro questionamento daquele senhor. Talvez quisesse saber qualquer outra informação, rua, bairro, algum comércio, um hospital... mas, não. O que ele queria mesmo era saber sobre aquela cidadezinha pacata. E eu não sabia o que dizer-lhe.

Costumo me questionar de vez em quando, mas essa era uma pergunta que eu nunca me havia feito e não sabia como respondê-lo.

Após se identificar como jornalista da capital, com quase trinta anos de trabalho, um homem com tamanha sabedoria e conhecimento, fiquei perplexa e lhe disse:

- Caro Senhor, está cidadezinha do interior conserva uma cultura antiga e cheia de costumes e tradições. Patrimônio histórico, onde os casarões, são lembranças de outras décadas. Até mesmo as pedras das ruas contam histórias.

- Conte-me mais!

Disse-me o senhor com brilho nos olhos. Feliz, ao perceber que estava entusiasmado, continuei. 

- Está cidade é modestamente batizada como o Berço da Cachaça Mineira, por ter como principal produto econômico e cultural, a cana de açúcar. Aqui se fabrica a boa cachaça mineira. Nos canaviais espalhados pela região, se ouvem casos antigos, contados pelos trabalhadores para passar o tempo. Dos alambiques espalha o cheiro picante de água ardente.

Comovido, aquele senhor se interessava cada vez mais. E eu, eufórica, continuava.

- Das lavouras de café se ouve o barulho de cada grão colhido manualmente, conservando assim, uma antiga tradição.

- Na praça desta tão aconchegante cidade, brincam sem medo ou preocupação as alegres e inocentes crianças.

- Enquanto isso, as pessoas, após os seu afazeres, encontram um tempinho para ficarem na janela dos antigos casarões, observando os antigos casarões, observando a tranquila movimentação da cidade.

- E é aqui no lugar onde moro, que tem moda de viola, artesanato de palha e madeira, que contam histórias e retratam uma tradição. 

- Tem estradas de terras onde marcham cavaleiros, e passam a manada de gado levantando poeira.

- Pode até parecer poesia senhor, mas o céu aqui é mais azul, as matas são mais verdes, o ar chega a ser tão puro quanto a água das nascentes. De manhã, a neblina rasteira, o cheiro de terra molhada e o verde ofuscado esculpem, no horizonte, a imagem mais singela e mais sublime que possa existir.

Quanto mais as palavras saiam de minha boca, mais o homem sorria e seu olhar brilhava. Ouvia-me atentamente, mas decidi parar por ali, já estava tarde e eu tinha que ir para minha casa. Ele me olhou no fundo dos olhos, agradeceu-me gentilmente, e se foi.

Não fiquei sabendo o nome daquele Senhor e nem o porque do seu interesse pela minha cidade. Mas, se tivesse a oportunidade de conversar com ele de novo, não o perguntaria nada disso, apenas agradeceria pela oportunidade que tive de observar e valorizar o lugar onde moro.

No fim da tarde, já em casa, quando o sol se escondia, a terra silenciava, os alambiques pediam descanso, as janelas dos casarões se trancavam, eu procurava me lembrar de cada palavra dita àquele Senhor. Palavras, estas, que me deixaram inquieta.

Enquanto tudo se acalmava, eu registrava no papel as palavras e mais palavras, que me motivaram a ser uma grande admiradora do lugar onde vivo.